Monday, November 21, 2005

Entrevista a René Herrera

“Em busca do ADN” poderia ser o lema deste “Indiana Jones” da genética, que aos 52 anos continua a percorrer o mundo na senda das migrações humanas, para compreender a nossa história e a tendência ou resistência das diversas populações a certas doenças hereditárias. No futuro, quando a tecnologia o permitir, o material recolhido por René Herrera estará disponível para ser estudado e usado em tratamentos de medicina para lutar contra as doenças genéticas. Como descreve o trabalho realizado pelo seu laboratório?
Uma boa parte dos nossos esforços é dirigida para a recolha de amostras de ADN das populações do mundo, para serem guardadas num banco que nos ajude a estudar as variações genéticas entre grupos humanos. É uma ferramenta que nos permitirá estudar a viagem que os homens empreenderam como espécie, e como conseguimos ocupar os diversos pontos do planeta.

Quantas amostras já têm?
Cerca de 10 mil, de mais de 200 populações humanas, entre as recolhas que nos próprios fazemos e algumas amostras enviadas por colegas de todo o mundo, de populações asiáticas, centro-americanas, africanas, europeias e do Pacifico Sul. Temos também tecidos de múmias sul-americanas, matéria cinzenta intacta dos primeiros habitantes da Florida e sangue de várias tribos. É um dos maiores bancos mundiais de ADN humano. Está em refrigeradores que contêm milhares de tubos, cada um com uma história para contar.

Por que é tão importante conservar o ADN desses povos?
Porque a sua relativa pureza genética se perderá para sempre na inevitável mistura inter-racial que se verifica em todo o planeta. Com o progresso dos transportes e comunicações, nem a mais remota tribo indígena está isenta de entrar em contacto com outras populações e perder essa distinção que a torna única. E sobretudo porque, dado que muitos grupos humanos são susceptíveis ou resistentes a doenças genéticas, o ADN que recolhemos e guardamos permitira, quando houver tecnologia para isso, estuda-las e trata-las com meios de engenharia genética. Talvez no futuro possamos encontrar uma cura permanente para certas doenças modificando ou substituindo o material genético conservado.

Como recolhem esse material?
Organizo expedições anuais com os meus alunos do grupo de Diversidade de Genética Humana para recolher amostras de sangue ou tecidos de populações que ainda não se tenham misturado. Depois de recolhidas as amostras são armazenadas no nosso laboratório.

O que fazem com as amostras de sangue recolhidas?
Em alguns casos, imortalizamo-las, o que é mais do que um termo poético. O que fazemos é isolar os glóbulos brancos de cada amostra numa centrifugadora, e depois infectamo-los com o vírus de mononucleose, que transforma as células brancas em cancerosas, isto é, torna-as imortais porque os tumores nunca morrem. Este procedimento permite ás células crescer e multiplicarem-se em qualquer momento. É possível congelá-las e descongelá-las várias vezes e continuar a trabalhar com elas. Embora o vírus transforme as células, é pouco provável que afecte os genes que irão ser submetidos a estudos posteriores. Por isso, imortalizar uma amostra de sangue é muito mais do que congelá-la. Porém, na maioria dos casos, o que fazemos é purificar o ADN do sangue ou dos tecidos e congelá-lo, sem conservar as células.

Como vê o futuro da biologia e da engenharia genética?
A tecnologia avança a passos de gigante. Actualmente, levamos semanas ou dias a fazer o que há cinco anos levava meses. Se vier falar comigo daqui a um mês, terei uma novidade com a qual não contava. Para mim, é um privilégio viver nesta época.

Texto retirado da revista Super Interessante de Dezembro de 2005

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